quinta-feira, 7 de julho de 2011

Trovas


O luar da madrugada
A refletir na água incolor
Tremulante e prateada;
A imagem do pescador

***********************
Sai cedo sem agasalho
O menino lenhador
Recolhe do frágil galho
Um ninho de beija-flor.

***********************

Guia-me cá nesta vida...
Dá-me tua mão, amigo...
És pra mim luz e guarida
Conforto, pão, doce abrigo...

***********************
 Menina meiga, voz mansa...
    Fala com Deus e adormece...
 Róseos anjos da esperança
Dão-lhe retorno as preces

************************

Criatura adorada...
À quem dás os beijos teus...
Quem é tua namorada...
És feliz meu semi-deus?

************************

Fátima Fleming

terça-feira, 5 de julho de 2011

Era Glacial

E esse gelo
A contrair o universo...
A congelar a rima do verso...
Deixando a alma
Sem calma, 
E esse gelo
A fazer medo,
A crispar tantos segredos...


Vem sol esperança
De hálito leve
Derreta esse gelo,
Desfaça essa neve!














Fátima Fleming

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Adeus

Tanto insisti para que partiste...
Pois já não aguentando ouvir tua voz
A dizer-me coisas (se bem que verdades...)
Infeliz decidi viver hoje a sós...

Não fizeste questão, nem levaste tuas coisas...
Saiste em sossego, nem olhaste pra mim...
Tão dono do mundo, tão cheio de si
Deixando-me o nada a mostrar-me o fim...

Olhando teu quarto, quase nada ficou...
Invadiu-me um vazio de dentro pra fora
E uma lágrima essência de arrependimeto
Gritou-me da alma: Teu amor foi embora...
Fátima Fleming

Carência

Menina criança
Menina tão mansa  
E já tão sofrida...
Olhinhos carentes,
A seguir a gente
Na rua comprida...
O que dizer-te agora,                        
Se tanto faz hora                                  
O bem à tua vida?                                  
Vai assim desolada,
Com a fome danada      
Danada e doída...
Sem ninguém ao seu lado
Que lhe de cuidados
Que a queira sarar... 
A dormir ao relento
Sem afeto... Sem alento...
Sem o abraço de um lar.



Fátima Fleming

ABANDONO

Que segredo se esconde
Sob o telhado que existe
Naquela casa tão velha,
Descorada, feia e triste...

Parece feitas de sombras
Umedecida na dor...
Não querendo a luz do sol,
Nem vida alegria ou calor...

Naquela casa fechada
Não há latidos de cão,
Não há o conforto criança,
Pra sorrir...não há razão...

É sozinha e carrancuda
Escondida, fosca e fria,
Até a adorável brisa
Evita dar-lhe bom dia...

De janelas ressequidas
Escondida ao pé do morro
Parece frágil mendiga
A esperar por socorro...


Fátima Fleming

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Enigma

O que sinto por ti...
Da-me um "quê" doloroso
E bem mais que indefinido
É esse "quê"... Meu bem precioso...


Por esse "quê" tão doido por ti
Vasculho e mais me afundo
Procuro...Debalde...Exausta
Nos quatro cantos do mundo...


O que sinto por ti
É incerto e tão preciso...
É como a sentir no inferno
O gosto do paraíso...


O que sinto por ti
É chocante... Tristeza... É Luz
Talvez... igual a Cristo calado
A entregar-se aos braços da cruz...

Fatima Fleming

BICHANO

Na casa o gato
Tão sozinho a miar
Para o pano de prato...
Para os cantos do lar...


Arranha o assoalho,
Arranha a parede,
Estraga o trabalho
bordado na rede...


Mia na sala
Para a televisão,
Um pouco se cala
Rolando no chão...


Puxa a cortina
Com raiva enorme!
E aos pés da menina
Cochila e dorme...

Fatima Fleming

RODOVIÁRIA

E falam e compram e bebem,
não tem sossego essa gente...
papeis a voar no vento
do dia lerdo e quente,
e a máquina de jogos ligada
verde amarelo azul espelho,
e um cão a dormir na calçada
onde passeia o pombo de pezinhos vermelhos
e um velho a sentar-se cansado 
ajeitando-se à despedida
e o fardo a pesar-lhe...
                                                         na viagem ou na vida...?
                                                         e a criança pedindo bala
                                                         apontando à lanchonete,
                                                         a mãe da-lhe um pouco de água
                                                         uma bala e um chiclete...
                                                         um passarinho brincando
                                                         anda um pouco... um pouco voa
                                                         livre, livre alheio a tudo
                                                         enquanto o tempo escoa...

                                                                                                                                        Fátima Fleming

quarta-feira, 23 de março de 2011

LÁGRIMA

Lágrima a escorrer mansa
Dos olhos fechados em prece...
Se acaso em doce lembrança
Anima, conforta...Aquece...


Se em tempestade; impulso
A romper o dique da alma,
Se em dor; pranto convulso
Que traz o recurso da calma,


Lágrimas essência da paz...
Remédio santo eficaz...
Doce irmã na caridade,


Se em gotas ou enxurrada,
Em lamento ou calada
A igualar a humanidade...




Fátima Fleming



BAÚ

Poeira,
           Boneca,
                        Anel...


Cadarço,
             Luva,
                       Pincel....


Convite,
              Peteca,
                          Tampinha,


Cachecol,
               Espirro,
                          Velhinha...


Laço, 
           Papel
                    Desbotado....


Lágrima,
            Presente...
                         Passado.




Fátima Fleming

PARA ALGUÉM ESPECIAL

Fonte de harmonia e dedicação...
Leme conduzindo o barco
Onde navega tantos perigos...
Rumores de tempestades não assustam
Implorando a Graça do Pai Amado,
Podes tudo naquele que a fortalece!
Em tudo vês a esperança brilhar
Sem nunca, nunca cansar de remar...


Ainda que se escureça o céu
Rumo terás em Deus confiante...
Anjos celestes trazem vigor e força
Unindo bênçãos às preces tuas...
Já breve surge o horizonte ensolarado
Onde descansará o barco ancorado...


Fé e Amor te sustentam as forças
Longevidade cubra o porto da tua vida
Em todo momento Deus te abençoe...
Mãe, Leme, Amor e Direção...
Incluindo carinho e resumindo és;
Ninho que aquece se o dia é frio e mau
Guarida e socorro em qualquer temporal.




Fatima Fleming

quinta-feira, 10 de março de 2011

ANONIMATO


Criança sem lar ao relento
Maltrapilha em qualquer rua
Encolhe-se a dormir na calçada
Da casa que não é sua...

Dói-lhe fundo a dor da miséria,
O chicote do mundo hostil,
Roupa nova comprada na loja
Nunca teve, nunca vestiu...

Sem sonhos, sem sapatos
Sem sobrenome, sem alento,
Raiz fraca... Planta pequena
Quase arrancada no vento,

Segue ao léu tenebrosa franzina
Sorrindo um riso arremedo
Porém resguarda esperanças
No coração em segredo...

Assim vai perambulando... Esquecida
No espaço do anonimato...
Os sonhos se petrificando;
Ao crime, mais um candidato.


                                                                                                                          Fátima Fleming.

Crença

Ainda há tempo...
De esperar a luz da aurora
Ainda por nublado que seja
O poente que predomina o agora...

Ainda há tempo...
De vetar o ressentimento, o desgosto
E deixar que o amor pela vida
Suavize os vincos do rosto...

Ainda há tempo...
Pra buscar alegria... Vigor
Na mescla da fé e coragem
À força interior...

Ainda há tempo...
Pra refazer os passos meus
A cada degrau da escada
Com muito mais fé em Deus...

Na espera de que o amanhã
Seja melhor, mais azul, mais bonito
Para crer que a benção virá
Sim, ainda há tempo, acredito.

Fátima Fleming

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Ana Lúcia

Ouço-lhe os passos de volta à calçada,
Ouço-lhe a voz em alegria à confortar,
Vens da aula, caderno, gargalhadas...
Adornos que o meu viver vive a cantar...

Meus conselhos te deixam zangada
Vais para o quarto sem sequer me olhar...
Porém preces elevo na madrugada
Para que anjos te iluminem o sonhar!

Tua boneca esqueceste no carrinho
Novidades vês agora em teu caminho...
Em graça vejo-te feliz crescer...

                                                                                       Lembra-te, nas lutas, filha querida
                                                                                       Nem sempre é de vitórias a vida
                                                                                       Faz bem á alma, as vezes perder...

Fátima Fleming

AURORA


Meu coração agasalhou-se no aconchego
Da paz, da paz desta manhã tranqüila e bondosa,
O sopro leve da brisa predomina a sussurrar,
Promessas alentadoras aos lagos, ás arvores...
Os pássaros não estão a cantar nesta manhã;
Apenas pipilam doce e agradavelmente a agradecer
Em oração, juntos comigo ao Todo Poderoso pela benção
Deste alvorecer suave e puro que sossega a alma e o
Coração dos mortais... 
Bendita seja esta manhã de paz e todos seus figurantes...


Fátima Fleming

PERFIL


Inteligente... olhos grandes...
Nariz modelado,
Parecendo... assim...
Feito á mão,
A boca em contorno
Bonito... dentes perfeitos,
E os lábios de cor...
De cor de quem
Sofre do coração...






Fatima Fleming

ALENTO


Há sempre um pássaro cantando
Nos fios do poste da rua...
Há sempre uma florzinha brotando
No trincado da longa calçada...
Há sempre uma luz no sorriso
Na tarde que se fecha emburrada...
Há sempre uma nuvem escura
Murchando a alegria dos sonhos...
Há sempre um espelho de mágoas
Refletindo a tristeza da hora
De um adeus em qualquer estação
A um trem que partiu... indo embora...


Fátima Fleming

Desejo


Quero flores a perfumar meus caminhos...
Caminhar sobre espinhos sem me ferir...
Quero a certeza de um abrigo, um ninho
Quero a essência do dia a me sorrir...

Quero a plumagem macia do rouxinol
Quero o silêncio que habita o deserto
Quero em minh’alma os doces raios do sol
E um amigo manso e bom sempre por perto...

Quero ser criança, possuir o talismã
Que me de asas, liberte-me inteiramente
E na candura, na beleza da manhã
Mesclada a crença, voe livre... Docemente.



Fátima Fleming.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

CARNAVAL

Nudez... Bebidas estridente euforia
Retoque típico principal
Dos bailes de confetes e fantasias
Nos dias revoltos de carnaval,

Carnaval passageira ilusão...
Horas perdidas em extremada folia,
E a multidão se agita no cansaço do salão
Inúteis arremedos da verdadeira alegria,

Carnaval de plumas e ricos bordados
De brilhantes lantejoulas e colares coloridos,
De faces mascaradas e corpos suados
De paixões desenfreadas e corações iludidos...

Nos clubes... Nas ruas a ruidosa orgia
Para os frenéticos foliões perfeito remédio,
E tudo escoando pela alma vazia
Retendo à carcaça as dores e o tédio...

Fátima Fleming

LEMBRETE

Se vier o perdão
Bater a sua porta
Lembre-se que ainda é hoje...

Se vier a mágoa
Arrombar-lhe a harmonia
Lembre-se que é passado...

Se vier a benção
Prometida a lhe sorrir
Lembre-se que é agora...

Se vier o dissabor
Amargando-lhe o dia
Lembre-se que logo virá
O amanhã...

E quando vier a morte
E vedar-lhe o caminho
Lembre-se que és Eterno...



Fátima Fleming.

REFLEXO


O tempo passou em embevecida
Desapercebida a tecer mil vontades
Sonhando, sonhando o perfume das flores
A guardar quimeras na realidade...

Livre descalça tal qual São Francisco
Repartindo as migalhas que levo nas mãos...
Olhando as estrelas em paz esperança
Voando nas asas da imaginação...

Hoje surpreendo-me abatida e cansada
Vendo o viço da vida se desvanecer,
Porém uma réstia de fé ainda insiste
Em dizer-me que o sonho não pode morrer...



Fátima Fleming.